quarta-feira, setembro 27, 2006

Amem - Fernando Anitelli (O Teatro Mágico)


Pelo retrovisor enxergamos tudo ao contrário: Letras, lados, lestes. O relógio de pulso pula de uma mão para outra e na verdade... nada muda. A criança que me pediu dez centavos é um homem de idade no meu retrovisor. A menina debruçando favores toda suja é mãe de filhos que não conhece, vendeu-os por açúcar, prendas de quermesse. A placa do carro da frente se inverte quando passo por ele. E nesse tráfego acelero o que posso, acho que não ultrapasso e quando o faço, nem noto. O farol fecha...Outras flores e carros surgem em meu retrovisor. Retrovisor é passado, é de vez em quando... do meu lado, nunca é na frente. É o segundo mais tarde... próximo... seguinte. É o que passou e muitas vezes ninguém viu. Retrovisor nos mostra o que ficou; o que partiu. O que agora só ficou no pensamento. Retrovisor é mesmice em dia de trânsito lento. Retrovisor mostra meus olhos com lembranças mal resolvidas. Mostra as ruas que escolhi... calçadas e avenidas. Deixa explícito que se vou pra frente, coisas ficam para trás. A gente só nunca sabe... que coisas são essas.

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