
Dia 01/06/05......perdi uma paciente. Cheguei no trabalho, fiz tudo dentro da minha rotina diária: conversei com meus alunos, preenchi as fichas, distribuí os pacientes do dia, desci com eles até os leitos, acompanhei minha aluna durante o atendimento e depois que vi que todos estavam desenvolvendo suas tarefas, subi em direção ao quarto da Dirce. Minha “vecchia” não estava nos seus melhores dias há semanas, aborrecida, chateada, cansada e CONFUSA! Toc-toc.....Abro a porta devagarinho e a preguiçosa estava dormindo, de costas pra mim. Mas não houve uma única vez em q eu tivesse aberto aquela porta em que ela não se virasse e mandasse-me entrar. Ela NUNCA deixou de se virar pra mim. NUNCA. Entro no quarto, encosto a porta, chego perto, Dirce imóvel. Não há movimento do peito, não há ar entrando. Não. Saio do quarto, TOC-TOC, bato mais forte na porta e a chamo pelo nome. Nada. Ela NUNCA deixou de se virar pra mim. Não há movimento, não há ar, não há vida. Saio em busca de ajuda, ajuda para aceitar q minha ‘vecchia’ não tinha se virado pra mim. Veio uma, duas, três, quatro, e todas concluíram q ela tinha ido. Não hesitei em sentar na cama e abraça-la, mesmo sem vida. Com os olhos encharcados cobrei dela em silêncio o adeus que não tive. Depois de 11 meses de convívio nem um até logo? Depois de segurar as pontas nos momentos de tristeza eu não merecia um adeus? Talvez ela pensasse que eu não a deixaria ir. Mas eu a deixei, assim q abri a porta e em 1 segundo, vi a ausência de respiração. Vai Dirce. Corra desse lugar e encontre o Reino dos Céus e fique ao lado do Senhor (ela sempre dizia isso). Apesar de toda a dificuldade em comunicar-se devido a sua afasia (incapacidade de linguagem, onde se trocam palavras, tornando a comunicação uma grande confusão), Dirce e eu tivemos as conversas mais incoerentes e mais significativas que eu jamais terei de novo. De toda aquela grande confusão verbal, tivemos bons momentos. Não consigo explicar porque razão aquela doce senhora me atraía tanto a atenção. Tive a felicidade de compartilhar esses momentos mágicos com alguns seres iluminados que passaram pelo asilo. Algumas outras pessoas enxergavam nela a luz que pensei que só eu via. Tatis (desculpem mas depois das emoções de hj não saberia onde colocar os h), Vanessas, Camilas, Priscillas, Nalvas, Suzis, Julias, Brunas, Ivas, Thiagos, Michelles, Danielas, etc.....Todas essas pessoas foram minhas aliadas na função de aliviar a dor dela pela solidão e incompreensão de todos ao seu redor. Esses seres iluminados q tive o prazer de conviver, fizeram da vida dela uma grande festa. E eu agradeço, por ela, todo esse esforço. Amanhã volto ao trabalho, volto mais triste pq dia 01/06/05......perdi uma amiga.
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