terça-feira, fevereiro 13, 2007

"Resetando"

Me pediram um pedaço de papel que contasse meu passado profissional.
Aparentemente é assim que se 'convence' alguém que você vale uma colocação.
Peguei um bloco de papel e comecei a escrever.
Nome, idade, endereço, correio eletrônico, graduação, pós-graduação, experiência profissional...
O papel começa a permanecer em branco.
Pensei em contar a história de quando eu amei profundamente aquela velhinha do primeiro andar, de quando eu colocava a música 12 do CD com a capa do pôr-do-sol para que ela se acalmasse, de quando ela me contava histórias sem que eu entendesse uma só frase, de quando ela me falava de sua fé, de quando eu entrei no seu quarto e a encontrei dormindo, serena, prá sempre e eu só pude me sentar e abraçá-la pela última vez.
Ou daquela outra que não levanta da cama antes de pentear os cabelos, passar pó de arroz, creme hidratante para as mãoes, óleo reparador de pontas de cabelo e que gosta de contar suas histórias de juventude em Pernambuco sentada no sol com o crochê ao lado.
Ou da jovem mulher que, em um acidente de moto, perdeu a perna, a independência, a vaidade e a fé e a cada dia de tratamento, depois de muita risada, lá ia ela andando de muleta e sorrindo, me desejando um bom fim de dia...
Tantas outras histórias.
Me disseram que isso não 'cabe' nesse papel. Não cabe em meu passado profissional e nem conta como experiência.
Mas que adorável experiência.
Se isso tudo e mais tantas outras histórias não 'cabem' nesse meu registro, o papel continuará branco....
Amassei o papel.

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